CAPÍTULO 9 - Construindo uma música de verdade
"Uma boa música não depende da quantidade de notas que possui, mas da forma como elas conversam entre si."
Apresentação
No capítulo anterior, você deu um passo muito importante.
Pela primeira vez, deixou de apenas conhecer ferramentas e começou a utilizá-las para criar algo seu.
Talvez tenha gravado uma sequência simples de notas.
Talvez tenha construído um pequeno ritmo.
Talvez tenha experimentado diferentes instrumentos até encontrar um som de que realmente gostou.
Independentemente do resultado, uma coisa é certa: você produziu sua primeira música.
E isso merece ser comemorado.
Mas permita-me fazer uma pergunta.
Quando você terminou sua gravação e a ouviu novamente, teve a sensação de que ainda faltava alguma coisa?
Talvez a música parecesse repetitiva.
Talvez parecesse vazia.
Ou talvez você simplesmente não conseguisse explicar por que algumas músicas emocionam tanto, enquanto outras, mesmo estando "certas", não despertam o mesmo interesse.
Se isso aconteceu, saiba que você acaba de chegar ao ponto em que todo produtor musical começa a evoluir.
Criar uma música não significa apenas gravar sons.
Significa organizar ideias.
É transformar notas isoladas em uma mensagem capaz de comunicar sentimentos, contar histórias e despertar emoções.
Assim como uma boa conversa depende da maneira como as palavras são escolhidas e organizadas, uma boa música depende da forma como seus elementos trabalham em conjunto.
Cada nota possui uma função.
Cada instrumento ocupa um espaço.
Cada silêncio tem um propósito.
Nada está ali por acaso.
É justamente essa organização que transforma uma simples sequência de sons em uma música de verdade.
Ao longo deste capítulo, você descobrirá que praticamente todas as músicas, independentemente do estilo musical, são construídas a partir de poucos elementos fundamentais.
Eles aparecem em uma canção popular, em uma trilha sonora de cinema, em um hino, em uma música eletrônica, em um samba, em um rock ou em uma peça erudita.
Quando esses elementos trabalham em equilíbrio, a música ganha identidade.
Quando um deles está ausente ou mal utilizado, sentimos que algo não está funcionando, mesmo sem saber explicar exatamente o motivo.
A boa notícia é que você não precisará decorar regras complicadas.
Também não será necessário aprofundar conceitos teóricos difíceis.
Nosso objetivo continuará sendo o mesmo desde o início deste livro: compreender primeiro, experimentar depois.
Você descobrirá que produzir música é muito parecido com montar um quebra-cabeça.
Cada peça possui seu lugar.
Quando compreendemos a função de cada uma delas, todo o conjunto passa a fazer sentido.
Ao final deste capítulo, você não apenas ouvirá músicas de maneira diferente.
Você começará a pensar como um produtor musical.
E essa mudança de olhar acompanhará todas as produções que fizer daqui para frente.
Objetivos do capítulo
Ao concluir este capítulo, você será capaz de:
compreender os elementos fundamentais que formam uma música;
diferenciar ritmo, melodia, harmonia e arranjo;
perceber como esses elementos trabalham em conjunto para construir uma produção musical;
enriquecer suas próprias músicas sem recorrer à complexidade desnecessária;
desenvolver uma escuta mais atenta, percebendo detalhes que antes passavam despercebidos;
utilizar esses conhecimentos para tornar cada nova produção mais organizada, equilibrada e expressiva.
Antes de prosseguir, lembre-se de uma ideia importante.
Você não está aprendendo fórmulas para fabricar músicas iguais.
Está adquirindo ferramentas para organizar sua criatividade.
Quanto mais compreender esses elementos, maior será sua liberdade para criar.
E essa é uma das maiores recompensas da produção musical.
Você já participou de uma conversa em que todas as pessoas falavam ao mesmo tempo?
Provavelmente foi difícil entender o que estava sendo dito.
Agora imagine outra situação.
Uma pessoa faz uma pergunta.
Outra responde.
Alguém acrescenta uma nova ideia.
Em alguns momentos todos permanecem em silêncio, refletindo sobre o que acabou de ser dito.
Perceba como essa conversa se torna muito mais agradável.
Na música acontece exatamente a mesma coisa.
Embora não utilize palavras, a música também comunica.
Ela desperta lembranças.
Expressa sentimentos.
Conta histórias.
Cria expectativas.
Surpreende.
Acalma.
Emociona.
Por isso, podemos dizer que a música é uma forma de linguagem.
Quando um pianista executa uma melodia delicada, parece estar falando ao coração do ouvinte.
Quando a bateria entra com mais intensidade, transmite energia e movimento.
Quando o baixo acompanha discretamente os demais instrumentos, oferece sustentação sem chamar a atenção para si.
Cada instrumento desempenha um papel diferente dentro dessa conversa.
Alguns assumem o protagonismo.
Outros permanecem em segundo plano, dando apoio para que a música aconteça.
Nenhum deles é mais importante que o outro.
Assim como em uma boa equipe, cada participante contribui de maneira diferente para alcançar um mesmo objetivo.
Talvez você já tenha percebido que, em muitas músicas, alguns instrumentos aparecem apenas em determinados momentos.
Eles entram.
Participam da conversa.
Depois se afastam para dar espaço a outros sons.
Essa alternância mantém a música viva e interessante.
Quando todos os instrumentos tocam o tempo todo, dizendo coisas diferentes ao mesmo tempo, o resultado pode se tornar confuso.
Um bom produtor sabe exatamente quando um instrumento deve falar.
E também sabe quando ele deve permanecer em silêncio.
Esse talvez seja um dos maiores segredos de uma boa produção musical.
O silêncio não representa ausência de música.
Ele faz parte dela.
Assim como uma pausa em uma conversa permite compreender melhor uma ideia, uma pausa na música prepara o ouvinte para aquilo que virá em seguida.
Às vezes, um único instante de silêncio provoca mais emoção do que dezenas de notas executadas sem interrupção.
Produzir música, portanto, não significa preencher todos os espaços disponíveis.
Significa organizar uma conversa entre sons.
Cada instrumento possui algo a dizer.
Cada nota tem um propósito.
Cada pausa ajuda a dar sentido ao conjunto.
Quando compreendemos isso, deixamos de enxergar a produção musical como uma sequência de comandos em um computador.
Passamos a enxergá-la como uma forma de comunicação.
E toda boa comunicação começa pela capacidade de ouvir.
À primeira vista, pode parecer estranho afirmar que o silêncio faz parte da música.
Afinal, se não existe som, como pode existir música?
A resposta está justamente na maneira como nosso cérebro percebe os sons.
Imagine assistir a um filme de ação em que todas as cenas fossem igualmente intensas.
Depois de alguns minutos, a emoção desapareceria, porque não haveria contraste.
O mesmo acontece na música.
As pausas criam expectativa.
Permitem que o ouvinte "respire" entre uma ideia e outra.
Destacam frases importantes.
Valorizam a entrada de novos instrumentos.
Criam suspense.
Produzem emoção.
Grandes compositores e produtores utilizam o silêncio como um recurso expressivo.
Em muitos casos, uma pequena pausa comunica muito mais do que uma sequência interminável de notas.
Por isso, ao produzir suas músicas, lembre-se de uma regra simples:
Nem todo espaço precisa ser preenchido.
Às vezes, deixar um pequeno silêncio é exatamente o que permitirá que a próxima nota seja ouvida com ainda mais intensidade.
Antes de continuar a leitura, escolha uma música de que você goste muito.
Ouça-a com atenção e procure responder mentalmente às seguintes perguntas:
Qual instrumento parece conduzir a conversa?
Quais instrumentos acompanham sem chamar tanta atenção?
Em quais momentos a música fica mais "vazia"?
Existem pequenas pausas antes da entrada de um refrão ou de um novo instrumento?
Como essas pausas influenciam a emoção da música?
Não se preocupe em encontrar respostas perfeitas.
O objetivo deste exercício é apenas desenvolver um novo modo de ouvir.
A partir de agora, você perceberá que cada música conta uma história não apenas pelas notas que utiliza, mas também pelos espaços que escolhe deixar em silêncio.
Se alguém lhe perguntasse qual é o primeiro elemento que percebemos em uma música, o que você responderia?
Muitas pessoas diriam que é a melodia.
Outras lembrariam da letra.
Algumas pensariam imediatamente nos instrumentos.
Na realidade, antes mesmo de reconhecermos qualquer um desses elementos, nosso corpo costuma perceber outra coisa.
O ritmo.
Experimente ouvir uma música que você conhece muito bem.
Antes mesmo de começar a cantar, é bastante provável que seus pés acompanhem a pulsação, sua cabeça se mova discretamente ou suas mãos acompanhem o tempo da música.
Isso acontece porque o ritmo conversa diretamente com nosso corpo.
Ele organiza o tempo.
Dá movimento à música.
É o que faz uma canção parecer tranquila, dançante, intensa ou enérgica.
Sem ritmo, as notas seriam apenas sons soltos, sem direção.
Por isso, costuma-se dizer que o ritmo é o coração da música.
Assim como o coração mantém o corpo em funcionamento por meio de batidas regulares, o ritmo mantém a música organizada, oferecendo uma referência para todos os demais elementos.
É sobre ele que a melodia se apoia.
É com ele que a harmonia caminha.
É nele que os instrumentos encontram um ponto de encontro.
Imagine o ponteiro de um relógio marcando os segundos.
"Tic... tac... tic... tac..."
Essa regularidade lembra aquilo que chamamos de pulsação.
A pulsação é o "pulso" constante da música.
Mesmo quando não percebemos conscientemente, ela está presente, conduzindo todo o conjunto.
Em muitas músicas, é justamente a bateria ou a percussão que torna essa pulsação mais evidente.
Em outras, ela aparece de forma muito discreta, quase imperceptível.
Mas continua existindo.
Agora imagine que você está caminhando.
Depois de alguns passos, percebe que eles formam um padrão.
Um...
Dois...
Três...
Quatro...
Um...
Dois...
Três...
Quatro...
Na música, organizamos as pulsações em pequenos grupos.
Esses grupos recebem o nome de compassos.
Você não precisa decorar fórmulas neste momento.
Basta compreender que o compasso ajuda a organizar a música em partes regulares, facilitando a execução, a gravação e a comunicação entre os músicos.
Mais adiante estudaremos esse assunto com maior profundidade.
Por enquanto, basta perceber que a música possui uma organização interna que normalmente passa despercebida pelos ouvintes.
No Capítulo 8 conhecemos o conceito de BPM (Batidas por Minuto).
Agora podemos compreendê-lo de maneira mais clara.
O andamento determina a velocidade dessa pulsação.
Quando o andamento é lento, a música transmite uma sensação de calma ou contemplação.
Quando é rápido, costuma transmitir energia, movimento ou entusiasmo.
Nenhuma dessas escolhas é melhor do que a outra.
Cada uma apenas comunica uma emoção diferente.
Talvez você imagine que o ritmo exista apenas dentro da música.
Na verdade, convivemos com ele o tempo todo.
Ele está nas batidas do coração.
Na respiração.
Nos passos durante uma caminhada.
Nas gotas de chuva caindo sobre o telhado.
No movimento das ondas do mar.
No funcionamento de uma máquina.
Na fala.
Na poesia.
Até mesmo o silêncio possui ritmo.
Perceber isso ajuda a compreender que o ritmo não é uma invenção dos músicos.
Ele faz parte da própria vida.
Produzir música significa aprender a organizar esse movimento natural em forma de sons.
Quando observamos músicos experientes, parece que eles nunca contam os tempos.
Na realidade, eles contam.
A diferença é que essa contagem tornou-se automática.
Com a prática, nosso cérebro passa a perceber a pulsação naturalmente.
É exatamente como aprender a andar de bicicleta.
No início pensamos em cada movimento.
Depois de algum tempo, simplesmente pedalamos.
Com o ritmo acontece o mesmo.
Quanto mais você tocar, mais natural essa percepção se tornará.
Abra sua DAW.
Escolha apenas um instrumento virtual, como um piano ou um teclado.
Agora pressione apenas uma única tecla do seu controlador MIDI.
Seu desafio não será criar uma melodia.
Será criar ritmos diferentes utilizando sempre a mesma nota.
Experimente, por exemplo:
um ritmo lento e tranquilo;
um ritmo constante, como uma caminhada;
um ritmo rápido e enérgico.
Ao terminar, ouça cada gravação.
Você perceberá que, mesmo utilizando exatamente a mesma nota, cada ritmo transmite uma sensação completamente diferente.
Esse exercício mostra que o ritmo, sozinho, já é capaz de comunicar emoções.
Escolha duas músicas de estilos diferentes.
Pode ser uma canção tranquila e outra bastante animada.
Agora ouça ambas prestando atenção apenas ao ritmo.
Procure responder:
Qual delas possui a pulsação mais rápida?
Em qual delas seu corpo sente mais vontade de acompanhar o tempo?
O ritmo permanece igual durante toda a música ou sofre pequenas variações?
Como a velocidade influencia a emoção transmitida?
Você perceberá que, muitas vezes, basta alterar o ritmo para que uma mesma ideia musical adquira uma personalidade completamente diferente.
A partir de agora, sempre que ouvir uma música, tente identificar primeiro seu coração.
Esse coração chama-se ritmo.
Até agora, descobrimos que o ritmo organiza o tempo.
Mas imagine uma música formada apenas pelo ritmo.
Ela pode ser interessante.
Pode fazer as pessoas dançarem.
Pode transmitir energia.
Entretanto, provavelmente faltará algo.
Faltará uma ideia capaz de permanecer na memória.
É justamente aí que nasce a melodia.
A melodia é a parte da música que normalmente cantamos, assobiamos ou lembramos com facilidade.
Quando alguém diz:
"Conheço essa música!"
Na maioria das vezes, o que reconheceu foi sua melodia.
Ela é a voz da música.
É por meio dela que muitas emoções chegam até nós.
Uma boa melodia não precisa ser complicada.
Pelo contrário.
As melodias que permanecem vivas por muitos anos costumam ser surpreendentemente simples.
Elas possuem direção.
Possuem equilíbrio.
Respiram naturalmente.
E, principalmente, fazem sentido para quem as ouve.
Pense em uma conversa entre duas pessoas.
Ninguém fala todas as palavras com a mesma intensidade.
Existem momentos em que a voz sobe.
Outros em que ela desce.
Às vezes fazemos uma pequena pausa antes de continuar.
Na música acontece exatamente a mesma coisa.
A melodia sobe.
Desce.
Repete algumas ideias.
Apresenta pequenas mudanças.
Faz pausas.
Respira.
É justamente essa combinação que faz com que ela pareça viva.
Uma melodia formada apenas por notas diferentes pode se tornar difícil de memorizar.
Por outro lado, uma melodia construída apenas com repetições pode tornar-se previsível.
O segredo costuma estar no equilíbrio.
Os compositores frequentemente apresentam uma pequena ideia musical.
Depois repetem essa ideia para que o ouvinte a reconheça.
Em seguida fazem pequenas modificações.
Essas mudanças mantêm o interesse sem fazer o ouvinte perder a referência.
Esse é um dos grandes segredos das melodias marcantes.
Elas equilibram repetição e novidade.
Ao produzir suas próprias músicas, procure não pensar apenas nas notas que irá tocar.
Pergunte primeiro:
"Que história desejo contar?"
A resposta ajudará sua melodia a ganhar direção.
Porque a melodia não é apenas uma sequência de notas.
Ela é uma ideia transformada em som.
Você provavelmente já viveu esta situação.
Ouviu uma música apenas uma ou duas vezes.
Horas depois, percebeu que continuava cantando aquele trecho sem perceber.
Isso acontece porque nosso cérebro gosta de padrões.
Quando uma melodia apresenta equilíbrio entre repetição e pequenas variações, ela se torna mais fácil de reconhecer e memorizar.
Não é a quantidade de notas que torna uma melodia bonita.
É a forma como essas notas se relacionam.
Por isso, muitas músicas conhecidas utilizam melodias bastante simples.
A beleza está na organização, e não na complexidade.
Abra sua DAW e escolha um instrumento virtual de sua preferência.
Agora limite-se a utilizar apenas cinco notas.
Sim, apenas cinco.
Seu desafio será criar uma pequena melodia utilizando essas notas.
Não tenha pressa.
Experimente diferentes sequências.
Repita alguns trechos.
Altere apenas uma ou duas notas.
Faça pequenas pausas.
Quando sentir que encontrou uma ideia interessante, grave-a.
Depois ouça sua gravação algumas vezes.
Pergunte a si mesmo:
A melodia parece natural?
Consigo cantá-la?
Ela transmite a emoção que imaginei?
Se a resposta ainda for "não", faça pequenas alterações.
Às vezes, mudar apenas uma nota é suficiente para transformar completamente uma melodia.
Escolha uma música de que você goste muito.
Agora procure esquecer, por alguns instantes, a letra e os instrumentos.
Concentre sua atenção apenas na melodia.
Enquanto escuta, reflita:
A melodia sobe e desce ou permanece quase sempre na mesma região?
Existem trechos que se repetem?
Em que momento aparece uma pequena novidade?
Você consegue cantar a melodia mesmo sem acompanhar a gravação?
Agora escolha outra música completamente diferente.
Compare as duas.
Perceba que, embora pertençam a estilos distintos, ambas utilizam repetições, pequenas variações e pausas para construir uma ideia que o ouvinte consegue reconhecer.
Esse é um excelente exercício para desenvolver o olhar — e principalmente o ouvido — de um produtor musical.
Quanto mais melodias você observar, mais naturalmente começará a criar as suas próprias.
E lembre-se de uma ideia importante:
Uma grande melodia não nasce da quantidade de notas.
Ela nasce da capacidade de emocionar quem a escuta.
Imagine assistir a uma peça de teatro.
No centro do palco está o personagem principal.
É nele que nossa atenção se concentra.
Mas observe ao seu redor.
Existe uma iluminação cuidadosamente preparada.
Um cenário.
Objetos.
Cores.
Tudo foi organizado para valorizar a atuação do personagem.
Se retirássemos todos esses elementos, a história continuaria existindo.
Mas perderia grande parte da emoção.
Na música acontece algo muito semelhante.
A melodia é quem normalmente conduz a história.
A harmonia cria o ambiente onde essa história acontece.
Ela não costuma chamar mais atenção do que a melodia.
Seu papel é outro.
Ela sustenta.
Valoriza.
Enriquece.
Dá direção.
Em muitos momentos, ela também desperta emoções antes mesmo que percebamos conscientemente o motivo.
É por isso que duas músicas com melodias parecidas podem transmitir sensações completamente diferentes.
O que muda, muitas vezes, é a harmonia.
A base da harmonia é formada pelos acordes.
Um acorde é o resultado da combinação de várias notas tocadas ao mesmo tempo.
Enquanto uma única nota pode ser comparada a uma palavra, um acorde se aproxima de uma frase: ele oferece mais contexto, mais significado e mais possibilidades de expressão.
Quando os acordes acompanham a melodia, criam uma sensação de unidade.
É como se preparassem o caminho para que a melodia pudesse caminhar com segurança.
Alguns acordes produzem uma sensação de tranquilidade.
Outros criam expectativa.
Alguns parecem pedir continuidade.
Outros dão a impressão de que a música chegou ao seu destino.
Mesmo sem conhecer teoria musical, nosso cérebro percebe essas diferenças naturalmente.
É por isso que, às vezes, sentimos que uma música "pediu" para terminar em determinado momento.
Essa sensação é criada, em grande parte, pela harmonia.
Neste momento, você não precisa decorar nomes de acordes nem compreender como eles são formados.
Nosso objetivo é muito mais simples.
Queremos apenas perceber que existe uma base sustentando a melodia.
Assim como uma árvore precisa de raízes para permanecer firme, a melodia encontra apoio na harmonia para crescer com equilíbrio e beleza.
Imagine três amigos caminhando juntos.
Cada um possui sua própria personalidade.
Separadamente, continuam sendo pessoas.
Mas, quando caminham lado a lado, formam um grupo.
Com as notas acontece algo parecido.
Quando tocamos apenas uma nota, ouvimos um som isolado.
Quando tocamos várias notas ao mesmo tempo, elas formam um conjunto chamado acorde.
Cada acorde possui uma sonoridade própria.
Alguns transmitem serenidade.
Outros criam tensão.
Outros parecem indicar que algo importante está para acontecer.
Essas sensações fazem parte da linguagem da música e serão estudadas mais profundamente nos capítulos seguintes.
Por enquanto, basta compreender que os acordes ajudam a construir o ambiente onde a melodia irá "viver".
Abra o projeto que você criou no capítulo anterior.
Escolha a pequena melodia que gravou.
Agora experimente adicionar alguns acordes utilizando um piano ou outro instrumento harmônico disponível em sua DAW.
Não se preocupe em acertar logo na primeira tentativa.
Experimente.
Ouça.
Troque um acorde por outro.
Perceba como a emoção da música muda, mesmo quando a melodia permanece exatamente igual.
O objetivo deste exercício não é encontrar a harmonia perfeita.
É descobrir que a escolha dos acordes influencia profundamente a forma como percebemos uma música.
Escolha uma música de que você goste.
Na primeira audição, concentre-se apenas na melodia.
Depois ouça a mesma música novamente.
Desta vez, procure prestar atenção aos instrumentos que acompanham a melodia.
Pergunte a si mesmo:
Os acordes permanecem iguais durante toda a música?
Em quais momentos eles mudam?
Como essas mudanças alteram a emoção da música?
Existe algum trecho que transmite mais tranquilidade ou mais expectativa?
Talvez você não consiga identificar cada acorde.
Isso não é importante neste momento.
O objetivo é desenvolver sua percepção.
Pouco a pouco, você descobrirá que a harmonia é como o cenário de um filme.
Quase sempre ela trabalha discretamente.
Mas, quando está bem construída, torna a história muito mais envolvente.
E é justamente isso que faz dela um dos elementos mais importantes da produção musical.
Imagine que três pessoas diferentes leiam exatamente a mesma frase.
A primeira é uma criança.
A segunda é um idoso.
A terceira é um ator de teatro.
Embora as palavras sejam exatamente as mesmas, provavelmente você perceberá diferenças na maneira como cada uma delas fala.
A voz muda.
A intensidade muda.
A emoção muda.
A personalidade muda.
Na música acontece exatamente a mesma coisa.
Uma mesma melodia pode transmitir sensações completamente diferentes dependendo do instrumento que a executa.
Experimente imaginar a famosa melodia de uma canção sendo tocada por um piano.
Agora imagine a mesma melodia sendo executada por um violino.
Depois por um saxofone.
Ou por uma guitarra com bastante distorção.
As notas continuam exatamente as mesmas.
O ritmo também.
Entretanto, a sensação muda completamente.
Isso acontece também em nosso dia a dia.
Quando um copo de vidro cai no chão e se quebra, mesmo sem olhar, sabemos imediatamente o que aconteceu. O som característico do vidro quebrando é diferente do som produzido por um objeto de plástico, de madeira ou de metal.
Da mesma forma, quando um amigo ou um familiar liga para você, muitas vezes basta ouvir a primeira palavra para saber quem está falando, mesmo antes de a pessoa dizer seu nome. Não reconhecemos apenas as palavras, mas a voz de quem as pronuncia.
Esses exemplos mostram que cada fonte sonora possui uma identidade própria.
Essa qualidade do som, que torna cada emissor único e facilmente reconhecível, recebe o nome de timbre.
O timbre é a identidade sonora de um instrumento.
É aquilo que nos permite reconhecer um piano, um violão, uma flauta ou uma guitarra, mesmo quando todos executam exatamente a mesma nota.
Na produção musical, escolher um timbre significa escolher a personalidade da música.
Um piano pode transmitir delicadeza, equilíbrio ou introspecção.
Um violão costuma aproximar a música de uma atmosfera acolhedora e intimista.
As cordas frequentemente ampliam a emoção.
Os metais acrescentam brilho e imponência.
Os sintetizadores podem criar ambientes modernos, futuristas ou cheios de movimento.
Naturalmente, essas associações não são regras.
São possibilidades.
A criatividade do produtor está justamente em utilizar os timbres de maneiras inesperadas, criando novas combinações e novas emoções.
Por isso, ao escolher um instrumento virtual em sua DAW, você não está apenas selecionando um som.
Está tomando uma decisão artística.
Está escolhendo quem falará com o ouvinte.
E essa escolha pode transformar completamente a maneira como sua música será percebida.